SUGESTÃO DUVIDOSA E ALGO PERIGOSA

Li com surpresa numa revista de motociclismo, um artigo de opinião do seu diretor sobre as novas tendências dos fabricantes em relação à sonoridade dos sistemas de escape das motos.

Diz ele nesse texto que os fabricantes estão de novo a investir numa maior sonoridade, com um nível de ruído superior e mais entusiasmante, e que esse facto pode ser entendido como um factor acrescido se segurança dos motociclistas. Continua dizendo que dessa forma os motociclistas poderão fazer-se ouvir melhor no trânsito, evitando alguns incidentes/acidentes.

Curioso esta nunca ter sido apontada como uma razão para alguns proprietários optarem por mudar os sistemas de escape de origem das suas motos, por outros no mercado, que oferecem um melhor desempenho do motor e também uma sonoridade mais estimulante.

Sendo eu leitor assíduo desta revista e reconhecendo o trabalho e conhecimento deste diretor, não pude deixar de ficar estupefacto com esta afirmação. Prende-se esta minha reação com três razões fundamentais. 

Uma, o factor humano! O ser humano é um animal de estímulos e reações que se ajustam a esses estímulos externos. Por alguma razão, não é costume ver motociclistas com as motos originais, fazer grandes acelerações ou “esticar” as mudanças até rotações mais elevadas. Eu próprio passei por essa experiência, há alguns anos atrás. Era proprietário de uma BMW e, por ocasião de uma manutenção mais prolongada, o concessionário que era conjunto com a Honda, só tinha uma Honda CBR600 VR46 como mota de cortesia. Decorada com as cores do Valentino Rossi, escape de rendimento, etc. Fantástica! Posso dizer-lhes que no segundo dia de utilização eu dei por mim a subir as rotações das mudanças mais baixas e a fazer reduções em rotações mais altas. O estímulo do ruído proveniente do motor era inebriante! Claro que logo me apercebi que ao sair de casa para o trabalho pelas 07h00, incomodava toda a gente, não respeitando por exemplo aqueles que teriam estado a trabalhar de noite. Tive então perfeita noção do efeito de entusiasmo provocado em mim, sem que me tivesse apercebido conscientemente da minha alteração de comportamento.

Por alguma razão, os motoclubes quando organizam um qualquer evento, pedem para não se dar rateres ou fazer acelerações até o corte da ignição entrar em funcionamento.

Outra, a segurança! Basta andar no trânsito das grandes cidades para perceber que o ruído do motor da moto não é um fator de segurança acrescido. Como é comum ouvir grandes acelerações em qualquer situação, o comum automobilista já nem liga, pois infelizmente, a primeira ideia que vem à cabeça é que lá está mais um a exibir-se.

Mais importante ainda, é o facto de os maiores perigos e/ou manobras perigosas acontecerem em cruzamentos, rotundas ou até em autoestradas. Sendo assim, não vejo como numa rotunda ou cruzamento, o motociclista conseguirá dar umas aceleradelas para reforçar a sua presença, uma vez que são locais onde por natureza se anda devagar e com rotações baixas. Igualmente e ainda mais relevante é, numa autoestrada, (com já me aconteceu inúmeras vezes) um automobilista por distração ou outra razão qualquer, começar a mudar de faixa inadvertidamente. Nunca ele irá ouvir seja o que for, pois provavelmente vai com os vidros fechados, a música a tocar, etc. Como todos certamente já experienciámos, o ruído só é audível após ou durante a passagem do veículo que ultrapassa. Além disso, esta é uma situação em que o motor da mota já irá numa rotação mais elevada, e não tem o motociclista como acelerar mais e produzir mais ruído. Esta última observação leva-me para a terceira razão.

As motas automáticas! O ruído está diretamente ligado à faixa de rotações a que o motor está a trabalhar em determinada altura. Cada vez mais marcas de todos os segmentos e cilindradas estão a oferecer esta possibilidade de caixa de velocidades automática, aos motociclistas. Não permite poder dar uma “aceleradela” mais vigorosa para se fazer ouvir melhor.

Entretanto tive também oportunidade de ler um outro artigo, noutra revista da especialidade, que tem uma abordagem bastante aprofundada da questão da sonoridade e não só, das motas. Caracteriza a forma de sentir os diferentes tipos de motores, 2,3, 4 cilindros ou mais, tanto nas diferentes sonoridades, como nas vibrações ou ressonância. Liga todas estas diferentes características, ao que eu chamo de fator humano.

Relembra-me uma situação que vivenciei com um familiar meu, que na altura, conduzia depressa, muito depressa. A sua Honda CBR 1100XX a isso convidava e ele não resistia. Um dia desafiei-o a tentar sentir a potência de uma mota de forma diferente. Tentar apreciar aquilo que eu chamei de sentir a “potência rouca” debaixo dele, com a força suficiente para poder imprimir ritmos mais elevados se assim quisesse ou poder fazer uma ultrapassagem em segurança, com uma aceleração vigorosa. Mas este tipo de mota, não o deixava correr os riscos que ele então corria com a velocidade e tipo de condução. Após algum tempo de adaptação, esta alteração de comportamento e desfrutar da mota foi adotada até hoje, 14 anos depois.  

Por tudo isto e baseando-me na minha experiência, a razão dos fabricantes estarem de novo a apostar numa sonoridade mais estimulante e entusiasmante, na minha modesta opinião, não pode nem deve ser vista como um fator de segurança. Esse é um pressuposto errado que pode induzir o motociclista numa falsa sensação de segurança por se achar mais audível.

Já uma boa e forte buzina, essa sim deveria ser a aposta. Felizmente, na minha mota, costumo dizer que quando busino parece um camião (de origem), e já me protegeu em diversas situações, as que mais me marcaram em rotundas, onde tendo a prioridade o outro veículo não parou e uma businadela me salvou, e em autoestrada com automóveis a começar a mudar de faixa de rodagem sem qualquer sinalização, ou mesmo razão para tal. Numa dessas vezes, seguia em viagem com a minha mulher, um automóvel na faixa da direita de repente começou a entrar na faixa ao lado esquerdo, onde eu circulava. Dei duas ou três buzinadelas, e ele voltou de forma brusca ao seu lugar. Percebi que se tinha deixado dormir ao volante e quando olhou para nós, pediu desculpa. A buzina protegeu-nos a nós e a ele.

De tudo aquilo que apresentei até agora, considero que o fator humano é o mais relevante. Esta nova sonoridade tem como objetivo tornar as motas mais apelativas aos sentidos e emoções, mas não a um qualquer sentido de segurança.

Boas curvas

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